Não é música, é canção!

Parêntese: segue mais um trecho segundo capítulo da minha monografia do curso de música (UFPR). Quem tiver interesse em conhecê-la integralmente, mande um e-mail para lobuloporto@gmail.com que eu envio.

Não é música, é canção!

Chamar a canção simplesmente de “música” é legitimado pela tradição. É famoso o texto de Susanne Langer[1] que diz que a música se sobrepõe ao texto atraindo atenção para si. A questão é que ao fazê-lo pode ser que se tenha autorizado arrolar a canção junto com outras formas de música pura e que depositam todo o potencial estético na realização sonora – sinfonias, sonatas, concertos etc.

Deixou-se de levar em conta aspectos particulares das canções: os lieder de Schubert, grande referência da canção erudita, por exemplo, são em boa quantidade, obras compostas apenas para execução em piano e voz e geralmente de curta duração. Essas características talvez diminuíssem grandemente as possibilidades de “jogo” (“entrelaçamentos” musicais como: exposição, desenvolvimento e retomada temas e motivos numerosos; modulações etc) se comparadas a uma sinfonia ou ópera. Temas e variações, desenvolvimentos, motivos e variações, citações, modulações... Uma canção possui um “tempo” curto para tantos jogos – a modulação é um bom exemplo, antes de haver modulação, é preciso ainda que se tenha tido tempo para afirmar uma outra tonalidade primeiramente.

Esses parágrafos servem apenas para tentar dar relevo ao fato de que, ao chamar a canção de música, é possível que as especificidades tenham sido preteridas, deixando que ela, a canção, compita com outras formas de produção musical para as quais os métodos tradicionais de análise são apropriados, pois criados para tanto.

Seria o mesmo caso de chamar os textos das canções – as “letras de música”[2] – de poemas. Isso gerará, inevitavelmente, juízos de valor depreciativos, da mesma forma que se depreciou a música da canção ao compará-la à música pura. As letras estariam talvez (salvo poucas exceções, como em casos de poemas que foram musicalizados, ou de uma letra de música mais arrojada, de fato) com aproximadamente um século de atraso em relação à poesia. As letras das canções brasileiras estão muito mais para os poetas românticos do que para Mallarmé, Rimbaud, Eliot, Drummond, Murilo Mendes, Ferreira Gullar ou Augusto de Campos. E olhe que esses primeiros mudaram a literatura ainda na primeira metade do século XX!

Algumas das características utilizadas no texto cantado são hoje muito questionáveis na estética da prática poética. Rimas e “formas fixas”[3], por exemplo, foram muito combatidos a partir do modernismo poético, mas na canção essas características são ainda predominantes.

A vontade de que as letras de música sejam abordadas especificamente não é unicamente deste trabalho. Augusto de Campos em 1972 escrevia:

“estou pensando
no mistério das letras de música
tão frágeis quando escritas
tão fortes quando cantadas
por exemplo “nenhuma dor” (é preciso ouvir)
parece banal escrita
mas é visceral cantada
a palavra cantada
não é a palavra falada
nem a palavra escrita
a altura a intensidade a duração a posição
da palavra no espaço musical
a voz e o mood mudam tudo
a palavra canto
é outra coisa”
[4]

Também Chico Buarque em entrevista ao caderno MAIS!, da Folha de São Paulo, disse do alto de sua longa experiência em composição de canções, que as preocupações da letra de música são diferentes daquelas da poesia. Falava o compositor da dificuldade de se falar da parte musical da canção e criticava os críticos por se deterem sobremaneira nas letras:

“Sei que é difícil falar do disco. Até para mim é difícil. Em jornal, crítico de música geralmente é crítico de letra. É compreensível que seja assim – a letra vai impressa, o crítico destaca este ou aquele trecho... funciona assim. Eu cada vez mais dou importância à música e tenho vontade de dizer: ”Olha, só fiz essa letra porque essa música pedia. Isso não é poesia, é canção". Enfim, fico um pouquinho chateado com essas coisas, mas sei que é difícil mesmo. Como é que vai imprimir uma partitura no jornal e explicar aos leitores? Não dá, eu sei.” [5]

Voltando a S. Langer, contra a sua afirmação de que a música se sobrepõe ao texto, “outros autores afirmam” diz S. R. Oliveira, “que a principal característica da canção encontra-se na fusão de letra e melodia, nenhuma das duas exercendo função subalterna”[6]. Essa questão de se algum dos fatores da canção se sobrepõe a outro, não se aprofundará no debate que esta monografia propõe. Mas acrescente-se que não só a fusão de ‘letra e melodia’ são fundamentais, também o são arranjo, instrumentação, harmonização e performance. A análise que será apresentada ao fim do volume buscará levar em consideração o máximo de informações possíveis apreendidas por meio de audição.

Finalizando... Chamar, portanto, a canção de CANÇÃO, é contribuir para o esclarecimento das especificidades dessa prática artística que não reflete singularmente as características de suas artes formantes, caso sejam: a poética e a música.



[1] LANGER, Susanne. Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva, 1980.

[2] Tradicionalmente, chamam os textos originalmente compostos para canção popular de LETRAS. Daqui em diante serão assim referidos, sem aspas, neste trabalho. Muito embora, possam aparecer também como “textos de canção”, ou “textos”, também sem aspas.

[3] Embora a saturação de tentativas de rompimento com a tradição por parte de muitos movimentos ditos de vanguarda, tenha desencadeado um movimento contrário nos momentos atuais da poesia. Ultimamente muitos poetas têm praticado e/ou defendido formas fixas sem deixar de lado a originalidade. Tenha-se em vista o trabalho de Paulo Henriques Britto em Macau, por exemplo. Veja-se também, o DVD “Festival de Poesia de Goyaz. DVD. 2006”.

[4] CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras bossas. 3ª ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1978, p. 309.

[5] BUARQUE, Chico. In MAIS! Folha de São Paulo. Sítio da internet da Folha de São Paulo. Último acesso em 12/09/2006: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60177.shtml

[6] OLIVEIRA, Solange. Literatura e música. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2002, p.31


Porque estudar "canção brasileira"?

Parêntese: como disse no primeiro aviso posto neste Lóbulo Porto, pretendo que esse seja um espaço para que pessoas direta ou indiretamente ligadas à música brasileira freqüentem com a intenção de discutí-la. Assim veremos que a canção não é um objeto superficial ou fácil, mas que se ri de ainda não termos encontrado a sua complexidade... e ela não facilita!
Como primeira postagem, deixo parte do segundo capítulo da monografia que realizei no curso de Música da UFPR. A monografia se chama
"Jogo, prazer e fruição na canção: Algumas considerações sobre a canção Circuladô de Fulô de Caetano Veloso e Haroldo de Campos", orientada pelo prof. Dr. Maurício Dottori.


Porque estudar “canção brasileira”?

Artisticamente no Brasil, o século XX foi o da consolidação da canção popular brasileira como manifestação que pode guardar complexidades e potencialidades estéticas dignas da “alta literatura” e “alta música”.

É comum apontar Noel Rosa como um dos primeiros criativos inventores do cancioneiro brasileiro. Assim como é comum atribuir à Bossa Nova a abertura da música popular a outras manifestações musicais estrangeiras e/ou eruditas, contribuindo para romper com algumas características “românticas” e operísticas fortemente presentes na música brasileira até então[1]. Além da contribuição no canto, a bossa nova realizou uma renovação da linguagem harmônica e reorganização rítmica da música brasileira.

Também foi consolidada nesse momento a presença do poeta do livro na canção popular através da figura carismática de Vinicius de Moraes. Independente do grau de profundidade e inventividade poética nas suas “letras”, o fato de um poeta, publicado e reconhecido como tal, ter se “rendido” aos encantos da música popular, contribuiu para que houvesse maior respaldo para essa prática. A partir de então a canção brasileira continuou na trilha da criatividade e conquistou o respeito de intelectuais e consumidores do Brasil e do exterior.

No século XX, apesar da influência depreciadora da crítica poderosa (e mal lida?[2]) de Adorno, que se difundia desde meados da década de 1920, a canção brasileira, sob a marca de “MPB”, ganha status junto à “alta música” e “alta literatura”. O aval por parte dos intelectuais tem como referência o livro O balanço da bossa e outras bossas (1968), assinado por referências tanto da esfera literária (Augusto de Campos) quanto musical (Gilberto Mendes). São destacados no livro os movimentos Bossa Nova e Tropicália e a inventividade de João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Ao final da década de 1970 a universidade direciona parte da produção crítica para a MPB. Segundo S. Santiago, foi “através da intervenção dum professor de Letras é que a crítica cultural brasileira começa a ser despertada para a complexidade espantosa do fenômeno da música popular”[3]. Tal “intervenção” é um texto de 1979 do professor José Miguel Wisnik, que hoje acumula uma produção textual fundamental para a compreensão da canção brasileira. Na década de 80 a produção se adensa. Vale destacar o lingüista e semioticista Luiz Tatit, que tem dedicado duas décadas de estudo à canção brasileira. Há outros tantos com interesses os mais diversos: desde historiadores, utilizando as canções como pano de fundo para determinadas épocas; pesquisas apenas sobre a realização musical das canções; análises apenas das letras; comparações com poesias de livro, buscando, inclusive, aproximá-las de movimentos literários; pesquisas sociológicas etc.

Canção e cancionistas ganharam prestígio. Lançamentos editoriais confirmam e contribuem para esse processo. O fato de uma editora do porte da Cia das Letras lançar a compilação das letras das canções de C. Buarque, C. Veloso e G. Gil, revela que elas alcançaram representatividade no livro (além de ser produto de apelo comercial).

Além disso são inúmeras as obras biográficas sobre compositores (músicos e/ou letristas) e intérpretes da MPB. Em Música Popular Brasileira Hoje (2002) há resenhas de 99 personalidades ou grupos da música brasileira, atribuindo também a figuras que atuam apenas como letristas (A. Blanc, P. C. Pinheiro) o papel de cancionista. Em contrapartida, há no livro Leitura de Poesia (1996) um artigo de J. M. Wisnik sobre a canção Cajuína, de C. Veloso, levando ao meio acadêmico e à sujeição da análise poética uma canção popular.

Ou seja, a canção no Brasil alçou vôo e atingiu um patamar elevado tornando-se um lugar privilegiado de prática artística. Mas apesar da sua relevância na produção artística, carece de um método que seja capaz de examiná-la adequadamente. Não se trata de levar em consideração a “melodização” adequada da sua “letra”, mas também a relação desta melodia com o arranjo, harmonia, instrumentação etc. Enviesada em faculdades de letras e música, as análises realizadas são geralmente parciais, aderindo quer ao aspecto textual, quer ao musical da canção.

Marcos Napolitano diz que chegamos a um ponto em que não podemos mais reproduzir certos vícios como analisar letra separada da música, contexto separado da obra, autor da sociedade e estética da ideologia[4]; afirma, enfim: “não podemos esquecer de pensá-las em conjunto e complemento”[5].

Se a canção erudita, por um lado, foi acusada de desdenhar os textos de suas musicas vocais e, por outro, se até meados do século XX a produção de canções “populares” no Brasil fosse geralmente ordinária, esse texto existe porque parte do princípio de que há riqueza estética na produção do que tem sido chamada de música popular brasileira.



[1] BRITO, Brasil Rocha. Bossa Nova. In CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras bossas. 5ª ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1993.

[2] NAPOLITANO, Marcos. História e música. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2002. O autor relê brevemente a crítica de um dos pilares da escola de Frankfurt e diz que ela não pode ser aplicada inteiramente à realidade da música brasileira Também Wisnik o faz em WISNIK, J. M. O minuto e o milênio ou Por favor, Professor, uma década de cada vez. São Paulo: Publifolha, 2004, p.176.

[3] SANTIAGO, Silviano. In ANTELO, R, et alii (orgs.). Declínio da Arte – ascensão da cultura. Florianópolis: Abralic/Letras contemporâneas, 1998, p.11-23.

[4] NAPOLITANO. Marcos. História e música. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2002, p. 08.

[5] NAPOLITANO. Marcos. História e música. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2002, p. 96.

Estamos em construção.
Em breve este será um espaço para discussões bacanas sobre canção brasileira.