Porque estudar "canção brasileira"?

Parêntese: como disse no primeiro aviso posto neste Lóbulo Porto, pretendo que esse seja um espaço para que pessoas direta ou indiretamente ligadas à música brasileira freqüentem com a intenção de discutí-la. Assim veremos que a canção não é um objeto superficial ou fácil, mas que se ri de ainda não termos encontrado a sua complexidade... e ela não facilita!
Como primeira postagem, deixo parte do segundo capítulo da monografia que realizei no curso de Música da UFPR. A monografia se chama
"Jogo, prazer e fruição na canção: Algumas considerações sobre a canção Circuladô de Fulô de Caetano Veloso e Haroldo de Campos", orientada pelo prof. Dr. Maurício Dottori.


Porque estudar “canção brasileira”?

Artisticamente no Brasil, o século XX foi o da consolidação da canção popular brasileira como manifestação que pode guardar complexidades e potencialidades estéticas dignas da “alta literatura” e “alta música”.

É comum apontar Noel Rosa como um dos primeiros criativos inventores do cancioneiro brasileiro. Assim como é comum atribuir à Bossa Nova a abertura da música popular a outras manifestações musicais estrangeiras e/ou eruditas, contribuindo para romper com algumas características “românticas” e operísticas fortemente presentes na música brasileira até então[1]. Além da contribuição no canto, a bossa nova realizou uma renovação da linguagem harmônica e reorganização rítmica da música brasileira.

Também foi consolidada nesse momento a presença do poeta do livro na canção popular através da figura carismática de Vinicius de Moraes. Independente do grau de profundidade e inventividade poética nas suas “letras”, o fato de um poeta, publicado e reconhecido como tal, ter se “rendido” aos encantos da música popular, contribuiu para que houvesse maior respaldo para essa prática. A partir de então a canção brasileira continuou na trilha da criatividade e conquistou o respeito de intelectuais e consumidores do Brasil e do exterior.

No século XX, apesar da influência depreciadora da crítica poderosa (e mal lida?[2]) de Adorno, que se difundia desde meados da década de 1920, a canção brasileira, sob a marca de “MPB”, ganha status junto à “alta música” e “alta literatura”. O aval por parte dos intelectuais tem como referência o livro O balanço da bossa e outras bossas (1968), assinado por referências tanto da esfera literária (Augusto de Campos) quanto musical (Gilberto Mendes). São destacados no livro os movimentos Bossa Nova e Tropicália e a inventividade de João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Ao final da década de 1970 a universidade direciona parte da produção crítica para a MPB. Segundo S. Santiago, foi “através da intervenção dum professor de Letras é que a crítica cultural brasileira começa a ser despertada para a complexidade espantosa do fenômeno da música popular”[3]. Tal “intervenção” é um texto de 1979 do professor José Miguel Wisnik, que hoje acumula uma produção textual fundamental para a compreensão da canção brasileira. Na década de 80 a produção se adensa. Vale destacar o lingüista e semioticista Luiz Tatit, que tem dedicado duas décadas de estudo à canção brasileira. Há outros tantos com interesses os mais diversos: desde historiadores, utilizando as canções como pano de fundo para determinadas épocas; pesquisas apenas sobre a realização musical das canções; análises apenas das letras; comparações com poesias de livro, buscando, inclusive, aproximá-las de movimentos literários; pesquisas sociológicas etc.

Canção e cancionistas ganharam prestígio. Lançamentos editoriais confirmam e contribuem para esse processo. O fato de uma editora do porte da Cia das Letras lançar a compilação das letras das canções de C. Buarque, C. Veloso e G. Gil, revela que elas alcançaram representatividade no livro (além de ser produto de apelo comercial).

Além disso são inúmeras as obras biográficas sobre compositores (músicos e/ou letristas) e intérpretes da MPB. Em Música Popular Brasileira Hoje (2002) há resenhas de 99 personalidades ou grupos da música brasileira, atribuindo também a figuras que atuam apenas como letristas (A. Blanc, P. C. Pinheiro) o papel de cancionista. Em contrapartida, há no livro Leitura de Poesia (1996) um artigo de J. M. Wisnik sobre a canção Cajuína, de C. Veloso, levando ao meio acadêmico e à sujeição da análise poética uma canção popular.

Ou seja, a canção no Brasil alçou vôo e atingiu um patamar elevado tornando-se um lugar privilegiado de prática artística. Mas apesar da sua relevância na produção artística, carece de um método que seja capaz de examiná-la adequadamente. Não se trata de levar em consideração a “melodização” adequada da sua “letra”, mas também a relação desta melodia com o arranjo, harmonia, instrumentação etc. Enviesada em faculdades de letras e música, as análises realizadas são geralmente parciais, aderindo quer ao aspecto textual, quer ao musical da canção.

Marcos Napolitano diz que chegamos a um ponto em que não podemos mais reproduzir certos vícios como analisar letra separada da música, contexto separado da obra, autor da sociedade e estética da ideologia[4]; afirma, enfim: “não podemos esquecer de pensá-las em conjunto e complemento”[5].

Se a canção erudita, por um lado, foi acusada de desdenhar os textos de suas musicas vocais e, por outro, se até meados do século XX a produção de canções “populares” no Brasil fosse geralmente ordinária, esse texto existe porque parte do princípio de que há riqueza estética na produção do que tem sido chamada de música popular brasileira.



[1] BRITO, Brasil Rocha. Bossa Nova. In CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras bossas. 5ª ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1993.

[2] NAPOLITANO, Marcos. História e música. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2002. O autor relê brevemente a crítica de um dos pilares da escola de Frankfurt e diz que ela não pode ser aplicada inteiramente à realidade da música brasileira Também Wisnik o faz em WISNIK, J. M. O minuto e o milênio ou Por favor, Professor, uma década de cada vez. São Paulo: Publifolha, 2004, p.176.

[3] SANTIAGO, Silviano. In ANTELO, R, et alii (orgs.). Declínio da Arte – ascensão da cultura. Florianópolis: Abralic/Letras contemporâneas, 1998, p.11-23.

[4] NAPOLITANO. Marcos. História e música. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2002, p. 08.

[5] NAPOLITANO. Marcos. História e música. Belo Horizonte, Ed. Autêntica, 2002, p. 96.

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