A TRAMA DA TRAMA
um passo para um acordo entre indústria, artista e público(?).
Há um provérbio que sempre gostei muito de usar: “a necessidade faz o sapo pular”.
Parece-me um conhecimento especialmente aplicável ao modelo econômico que comanda o planeta há não sei desde quando. A economia mundial quase sempre apresentou saídas espertas às intempéries que por hora existiram (detalhe: reviso esse texto nos dias em que os EUA aprovaram um “pacotão do Obama” de 789 bilhões de dólares para apoiar a economia americana – nesse caso não é uma solução tão esperta, mas a necessidade de agora não é uma necessidade qualquer; de qualquer maneira, a economia mundial tem dado seus pulos; o mundo não vai acabar).
Focando num seguimento específico da economia, podemos pensar mais na indústria fonográfica. Às vezes dizem que essa indústria vai falir depois das maneiras grátis ou barateadas de se ter acesso à música. Essa seria, no meu ponto de vista, uma maneira muito otimista de ver as coisas. Otimista sim, porque daria um certo prazer em ver as responsáveis pela redução da música a meros produtos comerciais pagando um pouco caro por isso. Mas empresas como a Universal, a BMG, a EMI e outras gigantes vão dar também seus pulos e encontrar novas maneiras de continuar ganhando fortunas.
Ao que parece, uma das estratégias no primeiro momento é investir mais nas músicas de DVD do que nas músicas de CD – talvez porque fazer downloads de 700Mb, no caso de vídeos em formato .avi, ainda seja pouco viável se comparados aos arquivos de música em formato .mp3, entre 3 e 8Mb geralmente, dependendo do grau de compactação que foi utilizado. Walter Garcia chamou a atenção para o fato de o último disco de Chico Buarque, Carioca, sair pela Biscoito Fino enquanto a coleção de 12 DVDs sobre sua vida e obra saíram pela EMI1. Ou seja, a música (inédita, a criação) fica preterida ao passo em que a imagem do artista e as obras consolidadas (reprodução) são vendidas. Outra alternativa das majors está sendo a aproximação com as empresas de telefonia celular, vendendo músicas para os aparelhos de telefonia móvel que reproduzem alguns formatos de áudio2.
Todavia, o que me trouxe a esse texto é um fato que me alegrou bastante: a disponibilização do disco Danç-Eh-Sa, do Tom Zé, no site da gravadora Trama.
Soube do disco pela vitrina das livrarias Saraiva. Tenho me dedicado à canção brasileira das últimas duas décadas e constantemente me deparo com a afirmação de que a canção (ou a MPB) morreu, e tomei um grande susto (na verdade fiquei feliz) quando vi o nome do disco do Tom Zé: Danç-Eh-As – Dança dos herdeiros do sacrifício. O fim da canção. “Pronto. Até os cancionistas estão abdicando da sua produção!”, pensei. O disco estava sendo vendido por R$ 20,00 e o DVD por R$ 34,00(?).
Confesso que no exato momento pensei, me divertindo, que baixaria o disco gratuitamente em algum blog – afinal de contas, quando nós brasileiros pirateamos um produto como um CD, prejudicamos basicamente as lojas de discos e as gravadoras e/ou distribuidoras; o artista já ia ganhar quase nada mesmo daquele produto. Enfim, em casa digitei no Google o nome do disco, nome do autor seguido da palavra blog, a receita para “baixar” inúmeros discos. Mas para uma enorme surpresa (também fiquei feliz) o que apareceu foi o site da própria Trama oferecendo o disco gratuitamente e, aí a alegria, o Tom Zé receberia um pagamento pelos downloads feitos do seu disco. Vasculhando o site da empresa descobri que há downloads remunerados até para amadores” (informações precisas no próprio portal).
Nos últimos anos tem ficado muito claro o comportamento conservador do Mercado (assim, como se fosse uma pessoa!), que toma antibiótico já nos primeiros espirros. As bolsas de valores e os “efeitos dominó” da quedas do mercado financeiro são os melhores exemplos desse comportamento. Os “atores” que realmente movem o capitalismo global (para usar os termos do Milton Santos3) são completamente anversos à redução dos lucros.
Estando as majors da indústria fonográfica inseridas nesse contexto, a sua prática nos primeiros anos do século XXI foi basicamente a de condenar a pirataria e outras maneiras de troca e comercialização de músicas sem a salvaguarda dos direitos financeiros das partes envolvidas, mesmo que o discurso por ela utilizado seja movido pela idéia de proteção dos direitos do artista – que é um dos grupos que menos ganha na venda de um cd e muitas vezes admite, e até pede, que “pirateiem” seus trabalhos. Mas desta vez parece que o leão acreditou que é mais forte que seu domador4 e, ao menos no Brasil, o discurso contra a pirataria não emplacou.
Obviamente a indústria fonográfica nunca desejou resolver esse problema (dela) com discurso. Junte-se a isso o fato de que a modernização tecnológica das últimas décadas não alterou apenas as relações imediatamente ligadas ao comércio dos produtos da indústria fonográfica; ocorreram mudanças no próprio fazer musical e na maneira de recepção do público – a utilização do aparelho celular, por exemplo, como meio de compra e de escuta.
Uma enxurrada de músicas foi posta à disposição do público nos últimos anos. Músicas de épocas passadas, regiões distantes, culturas diferentes, guetos inimagináveis... Grande parte do público trocou as rádios comerciais por suas rádios particulares montadas nos seus computadores e tocadores portáteis, como o ipod e as outras incontáveis marcas que produzem os aparelhos. Isso para dizer que, talvez o fato de ter aumentado a oferta de músicas tenha gerado uma diminuição (e não infelizmente a extinção) do poder do hit. Se a “livre escolha” ao repertório se transformar de fato numa realidade, o que guiará a seleção é mais o gosto do ouvinte do que a programação midiática. Embora – que isso fique bem claro – ninguém aqui acredite que todo o poder de formação de gosto que tenha os canais de rádio e televisão, e outros canais das novas mídias, serão extintos – a construção do gosto está sempre ligada a uma série de fatores, dos quais a divulgação é um deles, e isto é bom, o problema é a tirania dessas vozes. Os ingredientes talvez permaneçam os mesmos na seleção do repertório, mas talvez o peso das medidas é que se altere um pouco; talvez o histórico cultural pessoal conte mais do que contara em outros períodos áureos do rádio e televisão, quando ficava em segundo plano à mercê da programação financiada pelo jabá.
No livro A cauda longa, Chris Anderson, analisando a questão dos hits e das novas possibilidades do mercado cultural, diz que não eram os hits que faziam com que a produção fosse escasseada e tornava a indústria dependente de sua existência, mas justamente o contrário: a falta de uma ampla produção faz com que todas as fichas sejam apostadas em alguns poucos produtos com potencial (inventado extra-artisticamente, na maioria mais das vezes) para atingir grandes públicos e sustentar os outros produtos não-hits da indústria. Na nossa época, entretanto, não é necessário que se dedique tanto a um só produto; até porque, monopolizar os canais de comunicação nesse momento é muito mais complexo do que monopolizar até o começo da década de 1980, quando eram muito menos numerosos. Chris Anderson aponta então que mais de 50% do comércio de música de algumas empresas do ramo estão mais ligadas à venda de não-hits do que à venda de hits. Essa é uma realidade dos EUA, e é uma tendência que ele verifica desde o fim dos anos de 1990 – que coincide com a criação e popularização de programas de compartilhamento gratuito de áudio, como o Napster, Emule e inúmeros outros.
No Brasil, as mudanças parecem apontar para aspectos como esse. Só que no Brasil a pirataria parece ser ainda mais forte que nos EUA. Lá, com as lojas online ofertando o produto individualmente (faixas destacadas do cd) há vendas. No Brasil, não! Aqui, a tendência é que o produto chegue ao consumidor gratuitamente – etapa para a qual, segundo Andersen, a produção cultural norte americana também se encaminha. O problema da ilegalidade não tem cabido nesse processo, mesmo porque os próprios artistas não se interessam por ele.
Mas se pensarmos que a criação é um trabalho no qual é preciso empregar muitas horas até que um produto esteja acabado – e acabado neste sentido supõe gastos significativos com estúdio, ensaios, pagamento de músicos, equipamentos caríssimos – a questão passa a ser: como resolver o impasse de fazer com que o produto chegue gratuitamente ao ouvinte ao mesmo tempo em que o artista tenha seu trabalho remunerado? Ou seja, justamente aquela bandeira que as gravadoras dizem que é dos músicos, mas que por eles foi abandonada, porque eles sabem que na verdade é uma bandeira das gravadoras. Os artistas compreendem o posicionamento do público, já que é público também, e possivelmente passou por todos os problemas financeiros possíveis até conseguir seu lugar ao sol (no caso, os meios de comunicação).
Se esse é de fato “O” problema, parece que a Trama deu uma boa sugestão. Não sei se ela foi a primeira a fazê-lo, mas o fato é que o disco Danç-eh-sa, de Tom Zé, assim como o Chapter 9, de Ed Motta, além de outros discos, estão sendo oferecidos gratuitamente no site da Trama5. Pelo que vi, funciona da seguinte maneira: quando se clica no link para fazer o download do disco, aparece na tela (além de no “encarte virtual”) um símbolo da empresa Vale Refeição (no caso do Tom Zé. No caso do Ed Motta é uma propaganda do automóvel Gol). Assim, a empresa VR é quem paga os direitos ao artista. O interessante é que se trata de uma propaganda de gasto muito eficiente: em vez de se pagar para anunciar em uma revista de tiragem “x”, quando muitos folhearão sem notar a publicidade, o anúncio no caso da Trama é eficientíssimo. Não há como não ver a marca que salta na tela entre o momento que se entra no link para baixar o disco e o momento em que aguarda para aparecer o “botão” com a opção “clique aqui para fazer download”. Ou seja, a anunciante só paga referente aos anúncios que foram lidos.
Seria interessante saber o quanto é pago por cada download ao artista. Se são os mesmo míseros centavos que lhes são repassados da venda de CDs, ou uma quantia um pouco mais relevante. Igualmente interessante seria saber onde é que a gravadora, a Trama neste caso, ganha. Porque isso é extremamente necessário. Esse salto qualitativo que a Trama tem dado, não é para beneficiar exclusivamente ao artista, é para beneficiar a si mesma também! E isso é justo e necessário, para que não aconteça o que infelizmente aconteceu com a Kuarup, que fechou as portas nesse início de 2009 alegando que o comércio do disco físico estava comprometido e não era possível continuar atuando nesse mercado.
É uma pena, músicos que lutam pela por uma “brasilidade” conseguiam lançar seus trabalhos graças àquela gravadora. É o caso de Xangai, Elomar, Pena Branca e Xavantinho além de gravações instrumentais de alto nível, sobretudo de choro. Mas isso mostra que o traçado ao livre acesso é incorrigível. Uma onda muito grande que precisam aprender a surfar. Ir contra é difícil. As majors, ao mesmo tempo em que condenam a pirataria, se associam às empresas telefônicas para viabilizar carregamentos de arquivo de áudio pelo aparelho celular. Exemplo disso é parceria da telefonia Vivo com a nova sensação da música (ou do mercado?) brasileira Mallu Magalhães.
Enquanto isso, nas “independentes” (o que quer que isso signifique), a Trama deve ser a empresa que mais cresce no país, se não em capital, em casting e difusão da marca, ao contrário de empresas que insistem em cds físicos de preços bastante elevados como a Biscoito Fino, que está angariando excelentes músicos, os primeiros a serem refugados pela grande indústria de discos, talvez pelo justo fato de serem excelentes.
Por enquanto, a trama da Trama está muito mais rija.
P.S: Pensei em sugerir a hipótese de os próprios músicos já estarem solucionando o problema do mercado da música divulgando suas produções pela internet e esperando que alguém goste e os contrate para fazer um show pelo qual ele receberá. Mas acho que isso é aceitar uma situação de penúria para a classe artística, que já precisa ficar por aí atrás dos editais de origens das mais distintas. A trama da Trama está mais rija.
1 Está mais fácil produzir canção no Brasil? Walter Garcia. Revista Cultura e Pensamento.
2 “As gravadoras imploram: baixem música (no celular)”. http://br.noticias.yahoo.com/s/22102008/25/tecnologia-gravadoras-imploram-baixe-musica-no-celular.html
3 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização.
4 Para usar uma imagem de Terry Eagleton, árduo crítico da sociedade de consumo.
5 Esse texto já sai defasado: atualmente no site no qual estava disponível o disco, aparece a tarja “esgotado”.
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