Voltando "À" questão da vanguarda!

Eis a questão:

Você se incomoda com o fato de uma música sua se parecer com alguma outra música, sua ou de outrem?!

Ou então, você espera do grupo ou do artista que você gosta, obras substancialmente distintas daquelas que ele já apresentou?



8 comentários:

João Caserta disse...

Eu acho que não tem problema uma música SUA se parecer com outra música SUA tb. Geralmente quando eu gosto de uma banda ou artista é por causa do seu estilo e esse estilo me agrada. Se mudar demais talvez eu deixe de gostar.

Agora eu sempre me preocupo quando uma música minha se parece demais com a de algum outro artista. Quando ouço uma música de um grupo e essa música lembra demais outro grupo tenho a impressão que estão tentando imitar ou até copiar a referência e isso nunca me soa bem.

A questão é: toda música tem referências e todo compositor é influenciado. Então como fazer para que essas referências apenas influenciem o processo criativo e não entrem na sua composição como cópias, mesmo que inconscientes, de outros artistas?

juca lima. disse...

João, discordo em parte de você, mas você me proíbe de discordar!
A princípio eu discordo pelo seguinte: pra mim, não há diferença entre os dois tipos de cópias no que se refere à ARTE. "Reproduzir" (com esse sentido que estamos lidando, de parecer cópia) música própria ou de outro me parecem a mesma coisa artisticamente falando: a porção de criação é basicamente do mesmo tamanho.
O que diferencia essas duas cópias é o aspecto moral! Copiar a de outro pode inclusive te dar um processo (e ultimamente se falou muito disso em função do Coldplay, acusado por um monte de gente por vários plágios).
Mas agora, se você procura numa banda ou artista aquilo que você já conhece dele, eu não posso fazer nada.
Abração.

João Caserta disse...

Como assim te proíbo de discordar Não entendi... se proibi desproibo agora!!! AHAHAH

Eu não acho q seja um problema um artista fazer músicas parecidas entre si se ele estiver criado um estilo novo. As músicas estariam reforçando o estilo que ele está tentando colocar.
Vc mesmo já comentou sobre as novidades q o Lenine, por exemplo, trouxe pro violão na MPB. As músicas dele são parecidas entre si, mas não vejo problema nisso pelo fato dele estar criando o estilo "Lenine" de fazer música! (AHAHAHA)

Agora, se um outro compositor aparece hj com esse mesmo estilo, mesmo não sendo um plágio de alguma música específica do Lenine, isso sim seria algo ruim. Pode não caber processo, mas artisticamente seria o mesmo que nada.

Uma observação: quando eu falo "fazer igual" ou "copiar" eu não estou considerando algo tão descarado como plágio. Ai seria inaceitável pra qualquer pessoa no mundo. Falo de uma maneira mais geral, não uma copia fiel do original. Será q eu não gerei alguma confusão ai nesse ponto?

Abraço

Tchê disse...

João: acho que cópias inconscientes nunca serão "exatas", a não ser que se trate de um mau compositor, sem boa quantidade ou qualidade de referências. Nesse caso, ignora-se o compositor e fica tudo certo.

Juca: também não entendi a parte da proibição da discordância do João! eheheh... Assim como o João, não concordo que a cópia de si mesmo e a cópia de outrem sejam a mesma coisa. Mozart e Beethoven, se a gente for analisar na ponta do lápis, se copiaram a vida inteira. Mas ninguém chama isso de plágio: se chama de "estilo". São traços de uma linguagem própria que o compositor desenvolve, e todos os bons têm isso: mesmo um Caetano, que atira pra todos os lados, se copia o suficiente pra que a gente identifique a autoria sem muito esforço. E nada disso tem nada a ver com plágio, que seria uma coisa muito mais literal.

Abraços!

juca lima. disse...

Quanto à proibição (eu achei que não seria preciso): a explicação da proibição de discordar está no final do meu comentário. Disse que discordo do João quando ele diz que "não tem problema uma música SUA se parecer com outra música SUA tb". Discordo disso porque artisticamente (pensando no artístico pós romântico) a repetição foi muito combatida. Agora, se o João diz que procura numa banda ou artista o que ele já conhece (a repetição), por mais que eu acho que isso seja anti-artístico, eu não posso discordar, porque ELE QUER isto. Ou seja, sou proibido de contestá-lo pela necessidade de respeitar os desejos do indivíduo; querer a repetição é um desejo e direito dele. Faltou tirar o peso da palavra "proíbe"!

Quanto às outras questões.
Olha, é claro que eu não estou pensando apenas na influência quando proponho uma questão para se pensar a semelhança entre músicas. Influência existe e estilo existe.
Mas considere-se que eu tô falando de repetição e semelhança remetendo à discussão da vanguarda, como aponta o título do post.

Estou falando de parecer num sentido um pouco mais grave do que a inserção num estilo. Dentro de um estilo há milhares e milhares de obras que se assemelham suficientemente para serem agrupadas ali, mas que podem ser diferentes o suficiente para acrescentar algo a ele.

Em relação à repetição, num nível "não plágio", vou partir do próprio exemplo do João: o Lenine. Eu sou bastante fã do Lenine e acho que ele contribuiu demais pra música brasileira. Trouxe novidade depois da intenção repetição do Brock. Mas ao mesmo tempo, acho que ele já passou da constituição do estilo próprio à reprodução do que ele construiu. "Olho de Peixe" e "O dia em que faremos contato" chegam como novidades, depois vem a solidificação do estilo e agora parece já não contribuir mais. E o que me fazia procurar o Lenine era justamente a capacidade de inovar que ele mostrou no começo.

E olha que estamos pegando pra discutir um dos mais criativos compositores da "música popular"!! Abaixo dele há um mar de gente se repetindo.

Quando cito o Coldplay no outro comentário, é pra chamar a atenção para o fato de que existe tanta coisa parecida tocando por aí, que é fácil você acusar alguém de plágio. E também não é nenhuma banda de garagem. É o Coldplay.

E, Felipe, ter estilo e personalidade não é se copiar. Quando você diz que Beethoven "se copiou a vida inteira" eu achei estranho: o cara ajuda a enterrar um estilo e a erigir outro! Imagnina! A grandeza atribuída a ele sempre é o oposto disso. Uma obra extremamente inventiva, com desenvolvimento musical sem igual. A melhor representação do instituinte e não do instituído. (uma anedota serve: não foi ele que mandou colocar umas teclas a mais no piano?!).

Frigindo os ovos: parece que há uma dose muito pequena de inventividade no que se chama de "música popular". É a banda ou artista que acerta a mão em determinada altura da carreira e passa a vida inteira reproduzindo aquelas marcas.
Vou dar um exemplo que acho que vai deixar claro o que estou dizendo: todo mundo reconhece o Radiohead em "Pablo Honey" e no "Hail to the Thief", mas nos dez anos que os separam, MUITA coisa mudou lá.
Os Los Hermanos mostram isso no Brasil. E tiveram o culhão de parar quando eram reconhecidos e queridos por público e crítica. Um dos pretextos: é preciso viver pra poder fazer música (disse certa vez Rodrigo Amarante)!

É isso, por enquanto. MUITO OBRIGADO pelos comentários. Continuemos!
Abrações.

PS:
Uma sugestão, se me permitem... no mais, sendo essa questão em debate "A" questão das vanguardas, sugiro que dêem uma olhada naquela classificação que Ezra Pound fez dos poetas e Augusto de Campos atualizou para a música brasileira no livro Balanço da Bossa.
E outra: mesmo essa questão da influência é angustiante para alguns criadores. Nem isso eles queriam. Harold Bloom escreveu um livro que se chama "A angústia da influência". Há um textinho sobre isso em http://www.meloteca.com/artigo-a-angustia-da-influencia.htm

vinícius nisi disse...

(como a discussão foi pra outro lado, já vou pra lá tb!)
Acredito que artistas de "vanguarda popular" (como o Lenine, os los hermanos, o Pato Fu ou o Radiohead, cada um no seu quadrado) sempre estão buscando a superação, o novo, o diferente a cada lançamento. Antigamente o limite para estar dentro de um "estilo próprio" era praticamente a carreira inteira do artista, a vida útil do estilo era maior. Talvez pela demora em se esgotar as possibilidades desse estilo (comparando isso à situação atual): a informação não era de tão fácil acesso - baseada em shows, rádios e LPs com 8 faixas - e não havia tanta coisa parecida sendo produzida (pelo fato de também ser muito mais caro). Se pegarmos as carreiras de artistas "pré-internet" se sente uma homogeneidade na maioria dos casos, as mudanças aconteciam gradativamente por crescimento dentro de seu estilo). Atualmente, em parte por novas músicas e artistas aparecendo continuamente, a "busca pelo novo" dos artistas contemporâneos delimita o estilo próprio do artista como sendo o CD. As 12 a 17 faixas do CD são o máximo que se pode arrancar de originalidade. Se repetir o estilo no próximo CD, perde força, mais ou menos o que acontece com a sequência de um filme. Isso em se tratando de opnião de vanguarda, do lado contrário a indústria cultural, que é o que dá o maior lucro ao artista, prefere que a "fórmula que funcionou" seja repetida até o esgotamento. Um esgotamento tanto financeiro como da imagem do artista. Isso gera um paradoxo no próximo trabalho (CD) do artista: ou faz dinheiro aproveitando o sucesso e esgotando seu estilo próprio, (o que fere sua consciência como vanguardista e diminui sua credibilidade perante o público original, e tornará mais díficil o lançamento do "próximo-próximo trabalho") ou cria um novo estilo próprio (que é um risco, pois terá que tentar o ganhar o gosto do grande público novamente e pode também não agradar ao público original). concordam?

juca lima. disse...

Vini, concordo muito com você. Mas a discussão não foi para outro lado, não! É exatamente essa!
Concordo muito com essa história de ter um determinado trabalho para tentar o novo e depois já parir pra outra. Só que o interessante é que neste tempo "pós-internet", como você diz, não é mais preciso pensar em CD, mas em ciclos de músicas. A sua banda pode trabalhar num conjunto de músicas agora e depois partir para um ciclo novo.
Mas agora esse ciclo não precisa ter as 12 faixas acostumadas pelo CD. Pode ser maior ou menor. Isso é legal porque pode (mas é só possibilidade - vai depender do culhão de quem faz!!) gerar trabalhos bastante distintos já de partida.

Ah, acho que você superestimou o Pato Fu.

Abração.

Rodrigo L. C. disse...

Não me incomodo com o fato de minhas músicas se parecerem entre si ou com as de outrem. Pelo simples fato de que não faço música. Mas se por ventura pudéssemos substituir a palavra música pela sua irmã muda poema (poesia é outra coisa!) minha resposta - bem objetiva - seria: sim, não. “Sim” porque de fato é chato não ser original. E “Não” porque originalidade demais soa falso. A questão me parece de outra ordem. Que passa pelo crivo do bom e do bem feito. Nesse sentido entendo o que o Felipe quis dizer quando trouxe à baila Mozart e Beethoven, não porque saiba diferencia-los, mas porque me parece que por mais semelhante que uma música/poema ou um CD/livro sejam entre si o que de fato os diferencia enquanto vanguarda (não queria usar esta palavra!) me parece ser a possibilidade de serem parecidos ao ponto que podemos identificá-los como sendo de um determinado autor e suficientemente belos (não entremos nesse quesito, por favor) para que possamos compreender a singularidade e importância que cada um possui. Vamos aos exemplos. Ficarei com os que aqui já estão. Quando o Juca fala do Lenine: “Mas ao mesmo tempo, acho que ele já passou da constituição do estilo próprio à reprodução do que ele construiu. "Olho de Peixe" e "O dia em que faremos contato" chegam como novidades, depois vem a solidificação do estilo e agora parece já não contribuir mais. E o que me fazia procurar o Lenine era justamente a capacidade de inovar que ele mostrou no começo.” Entendo o que ele quer dizer, pois é notório que o Lenine de “Olho de Peixe” não é o Lenine de “O dia em que faremos contato”, mas que este último é o Lenine de todos os outros CD seguintes. Contudo, o que quero pensar é que me parece injusto julgar negativamente, por exemplo, “Falange Canibal” por não causar um estranhamento para quem já ouviu “O dia em que faremos contato”. Pergunto então: e se ouvíssemos “Falange Canibal” sem mais nada conhecer do Lenine, conseguiríamos invalidar esta obra? Mas concordo em parte contigo, principalmente quando pensamos nos 4 CDs dos Los Hermanos. É “Los Hemanos” em todas as faixas, não há como negar. Mas há um distanciamento entre cada obra que as tornam tão singulares em relação as outras que o estranhamento, tão salutar, nos acomete sempre. E se formos pensar então na continuidade disso nos projetos individuais do Amarante, mas principalmente do Camelo, o espanto é maior. Pensando um pouco no caso da literatura, que na verdade não difere muito, apenas muda o suporte para a criação, queria acrescentar que o que deve prevalecer é uma coerência na obra do artista que lhe imprima uma qualidade como um todo. Daí a defesa do Lenine. Para fechar e, provavelmente entre músicos, ser polêmico: prefiro o já esperado Chico Buarque de “Carioca” ao inovador Caetano de “Cê”, já que rock brasileiro por rock brasileiro prefiro os Los Hermanos.